Mafia City: Lexxa Blackfish – Episódio 2: Missão FEB

Por Lexxa Blackfish

Após minha chegada ao Reino marcada por muita hospitalidade e alegria, a sensação era de estar entre amigos. Trocamos telefone e nos falávamos várias vezes ao dia. O jogo cumpria seu papel em meio a pandemia! Desde o início percebi que o clima era de molecagem, embora o desejo de todos fosse crescer e se colocar no tabuleiro como uma das forças a lutar pela Prefeitura da cidade. 

Como em terra de sapos devemos ficar de cócoras com eles, foi o que fiz e, sem pudor, me permiti brincar com os rapazes como “um deles” e a brigar na cidade de corpo e alma pelas questões do time. Matemáticamente, eu era muito fraca e queria agradá-los, pois mesmo sendo fracos eram mais fortes que eu. Eu sentia orgulho em ser parte daquele clã.

Aquela era uma família de nobres homens brasileiros que acolhendo-me, convidaram-me ao encantamento com um projeto: homenagear a bravura e determinação dos heróis brasileiros na 2º Guerra Mundial**, numa “quase cópia” do que fizeram os russos, que fundaram na cidade o clã KGB.

Assim, o estudo da dinâmica política na cidade e o desenvolvimento dos primeiros trabalhos para a família ocorreram em clima de tranquilidade, alguma pressão por resultados e resiliência, com a certeza de que a família só estaria entre as mais poderosas após um longo e árduo tempo. Confesso que não sabia aquela altura quão longo poderia ser esse “tempo”.

A verdade é que não éramos respeitados por sermos fracos e tínhamos consciência disso, embora quiséssemos ter a força e o respeito dos mais fortes. Periodicamente, éramos visitados pelos mesmos capangas, que vinham nos cobrar um pedágio para que permanecêssemos nas terras da cidade. A vantagem, diziam eles, é que no Reino as cobranças eram apenas periódicas, enquanto que no Deserto, se davam ao bem-querer e completa impiedade dos mais fortes.

Foi durante essas “cobranças periódicas” que recebi uma visita do Patrick, o homem mais poderoso da cidade. 

Confesso que Patrick andava como um homem corpulento e majestoso. Seu carro cheio de efeitos e o tamanho de suas armas mostravam que ele não estava na cidade para brincadeira. Desconfio, contudo, de que era um homem mudo. Nunca o vi falar uma só palavra… Mas seus mais de 320 milhões de mortes no currículo falavam muito sobre ele.

Batia-nos a porta com toda a sua magnitude e silenciosamente mostrava-nos suas armas, ao que já sabíamos que deveríamos entregar-lhe tudo o que quisesse. Era a “lei do mais forte”, que eu não apenas discordava, como achava covardia… Só mais uma das tantas coisas feias do mundo real que são produzidas dentro do metaverso de Mafia City. 

Deixo a reflexão: Que graça há em explorar e vencer alguém só porque este é mais fraco? Metade do sabor da vitória está no prazer da superação de grandes desafios. 

Os grandes e verdadeiros campeões querem estar prontos para vencer os mais fortes, não enganar-se com falsos poderes construídos através da opressão dos mais vulneráveis. É assim que deveria ser.

Pena que alguns dirão que isso é chorar, perdendo a oportunidade linda que este jogo oferece de permitir que nos avaliemos e melhoremos como seres humanos, construindo em operação inversa, um mundo muito melhor. 

Certo dia, vendo-o bater em um amigo, afrontei-lhe e vomitei propositalmente em seu blazer, num ato de protesto e rebeldia. Faltava-me uma centena de milhares de T10 para lançar-lhe um ataque, que para ser sincera, talvez ainda não venceria. Dai a César o que é de César! Patrick era realmente muito forte!

Mas isso não impedia meus ataques de rebeldia na cidade…

Este dia só perdeu para a tarde em que expus no letreiro da cidade como o na época prefeito, Mr. Bowkiller, perdia tempo batendo nos mais fracos, mas ele se quer olhou-me e isso foi muito tempo depois… A verdade é que o Patrick foi muito gentil com minhas atitudes. Ele poderia ter me perseguido por toda a cidade e ainda ter pressionado todos os clãs para que me jogassem às traças. Ele foi elegante sem ser prepotente! 

Ignorou-me solenemente como se eu fosse um mosquito, que não mataria “apenas” porque não queria. Meu clã e eu não significávamos nada para ele e toda a sua força, além de uns pontos a mais no ranking do ‘kill event’. Não era nada pessoal, como o vi falar alguma vez, mas mesmo assim era covarde bater em mansões com metade ou até menos de 1/3 do próprio tamanho.

Se tudo é uma questão de valores pessoais, ele poderia ser mais “sustentável”, permitindo que os “peixes pequenos” crescessem e o ecossistema da cidade ficasse sempre “farto”. Contudo, felicidade para ele era ser poderoso, não sustentável ou criador de peixes. Ele silenciosamente ditava as regras e, aparentemente, ninguém poderia mudar isso.  

Mesmo assim jurei aos meus amigos que um dia acabaria com sua pompa…  Passei um mês inteiro pensando nisso!

Com sua foto colada na cabeceira da minha cama, eu dormia e acordava pensando em como fazer da nossa família a mais respeitada e em como acabar com a hegemonia do Patrick no tabuleiro. Meu desejo era fazê-lo ajoelhar-se, reconhecer nossa nobreza, mesmo que isso levasse 50 encarnações! Foi quando comecei a implementar técnicas de gestão estratégica e da qualidade para melhorar os negócios da família, num plano B para crescer mais rápido que a concorrência.

Sem combinar com ninguém, fui aqui e alí bombardeando a todos com idéias, novos procedimentos e diretrizes baseadas na minha percepção do jogo e do nosso time. Como esperado, não tardou para que a retirada de todos da zona de conforto resultasse em briga, comprovando que o cenário e o sistema interno de construção de relações dentro de Mafia City é similar ao utilizado na construção das relações profissionais e nos trabalhos em equipe. Os conflitos, não raro, são os mesmos, visto que os dois ambientes são regidos pelas relações interpessoais.

Como ocorre nos ambientes corporarativos, pensar o jogo de forma estratégica enquanto a maioria apenas reagia aos estímulos dos adversários, me fazia destoar um pouco no clã, reafirmando para todos os motivos da minha promoção a R4, mas também garantia a execução das responsabilidades que o cargo exigia e que era abaixo apenas do líder, o R5 dos clã. 

No entanto, eu não queria apenas um cargo de liderança no clã… Eu queria resultados! Meu cargo e personalidade exigiam isso. Eu não podia simplesmente fazer o que todos os outros faziam, quando o grande “boom” desse jogo é cada player joga conforme suas convicções. Sem falar que eu era apenas uma novata e precisava de alguma forma contrabalancear as minhas deficiências.

Enxergando Mafia City como um jogo de pessoas e reconhecendo que a tropa é um detalhe importante, mas ainda um detalhe, comecei a construir personas por trás de cada brutamontes, atirador, motociclista, automóveis ou super-heróis vigilantes dentro do jogo.

Foi assim que comecei um trabalho em duas frentes, enfrentando de um lado os adversários, dizendo-lhes “verdades doloridas” no chat da cidade, convidando-os minimamente à reflexão, enquanto relatórios de acompanhamento de resultados me permitiam uma gestão pragmática do nosso capital humano, delimitando metas e encontros semanais para que todos começassem a ter suas necessidades, objetivos e dificuldades compreendidas pela Direção do clã.

A idéia era permitir localizar espiões infiltrados, recuperar jogadores em fase de abandono do jogo e contabilizar a força real do clã no período. Como dizia Peter Drucker, só pode ser gerenciado o que pode ser medido.

Naturalmente, existiram pontos positivos e negativos no trabalho realizado, iniciando por minha falha em deixar “um pouco mais” claro aos rapazes do que significava tirar todo o clã da zona de conforto. Como cada jogador tem seus próprios objetivos e forma de encarar as partidas, tal qual acontece no mundo empresarial, onde cada pessoa é um mundo, seria natural que alguns interpretassem de forma errônea as ações mais impactantes e até mesmo se irritassem com a necessidade de promover mudanças.  

Se por um lado percebi que poderia melhorar minhas formas de comunicação, tornando-as mais eficazes, objetivas e adequadas para um público que eu precisava conhecer melhor em razão do pouco tempo de vida que eu tinha no metaverso, por outro, compreendi que havia entre nós quem discordasse de todas aquelas novas políticas, vendo-as como algo menor, desnecessário e ineficiente, visto que só queriam brincar, não importando-se em usar o jogo como um mecanismo de neurofitness ou mesmo que perder fosse uma parte desagradável da brincadeira. 

Quando chegamos no aspecto “ideologia”, com questões de gênero (tão comuns no ambiente dos games, que apenas refletem o que de fato acontece na sociedade) e filosofias (jogo de pessoas, lembra?) pesando nessa equação, tornou-se inevitável o meu afastamento do time, incialmente na emoção e só depois no lado de batalha, a não ser que eu pisasse nos freios e seguisse em ritmo mais lento, assumindo uma postura submissa e incoerente com meus objetivos no jogo. Eu queria vencer o Patrick e seu clã, não pisar nos freios e cumprir ordens erradas!

A gota d’água se deu quando avançamos consideravelmente para fechar uma aliança com Bruce, líder de um pequeno clã formado por mansões já construídas e em nível competitivo. Como nosso clã era menor que o de Bruce, era natural que pedíssemos ajuda vez ou outra, quando algum adversário mais forte que nós e do mesmo tamanho dela vinha nos atacar. 

Naquela semana Bruce ouvira de mim após recusar uma fusão entre nossos clãs, que era impossível vencer sozinha, com apenas 3 ou 4 mansões mais fracas que ela enfrentando clãs inteiros muito mais fortes. Confesso que não sei até que ponto ela ficou magoada por ouvir a verdade pragmática que lhe expus, mas o fato é que 2 dias após essa conversa “de mulheres”, nosso líder decidiu que entraria na guerra contra clãs pelo menos 10 níveis acima do nosso, sentindo-se obrigado a apoiar Bruce como prova de lealdade. 

Numa conversa na madrugada, expliquei ao nosso R5 que era errado um clã pequeno, com mansões ainda se desenvolvendo, entrar em guerra e, ainda por cima, apoiando um clã mais forte. Não é o pequeno que apoia o mais forte, mas o contrário. Esta era a segunda vez que eu pisava os calos de Jorge. A primeira, foi logo quando cheguei e fui promovida a R4, ganhando um cargo de recrutadora no clã, ao que expus durante minha fala de agradecimento uma vontade futura de tornar-me Deusa da Guerra. Dias depois dessa fala, visivelmente inseguro e incomodado, ele encontrou uma justificativa para deixar o cargo de R5 e tornar-se o Deus da Guerra.

Se é verdade que o novo líder, Fozzy, era muito mais hábil com as palavras e prudente com as ações, eu percebia aos poucos alí que minha presença “cheia de atitude” como em todo novato motivado, incomodava tanto quanto o fato de eu ser a única mulher no meio de rapazes e ainda exibir uma personalidade nada submissa ou covarde.

No impasse entre ser certo ou errado destacar nossas melhores mansões para lutar uma guerra que não era nossa, logo uma grande pororoca no clã, com a insegurança de Jorge gritando que aquele era o momento de ele “me colocar no meu canto” e “cortar minhas asas de mulher cheia de ordens”, enquanto eu, tinha convicção de que Bruce havia manipulado o Jorge como vingança pelo meu pragmatismo indesejado e que já não haveria espaço para mim naquela família se ele não mudasse de idéia e passasse a agir com racionalidade.

Decidir por uma guerra, mesmo que apoiando outro clã, deveria ser um consenso de todos, visto que quando as mansões de nível elite vinham até nossa base executar suas retaliações, todos eram atacados e não somente os maiores que as desafiaram.  Num jogo pay to win, uma decisão desse tipo significa perder tempo e/ou dinheiro, por isso tantas emoções afloram junto ao sibilar das víboras.

Era perceptível pelas trocas de mensagem, todos com todos, que os pensamentos e emoções estavam  no limite.

De que adiantava dedicar tanto tempo pensando alternativas e formas de implementá-las se um dos principais homens da família me enxergava como uma “mulher querendo as coisas do próprio jeito”, enquanto ele, apenas o “Deus da Guerra”, tomava decisões que desrespeitavam todos os manuais de boa postura no campo de batalha? 

Se minhas mil palavras eram insuficientes para expressar a grandiosidade e profissionalismo que eu pretendia implementar na gestão da FEB, que mais eu poderia fazer? Eu era uma iniciante no jogo e não tinha tropas de nível alto para fazer valer no grito as minhas palavras.

Sem a menor vontade de perder tempo atirando pérolas ao vento, decidi seguir meu próprio caminho. Afinal, ainda falávamos de um jogo e, como tal, este precisava ser divertido.

Eu sabia que não era nada, que se quer aguentaria um “sopro” das famílias mais fortes, mas o que eu poderia fazer? Há momentos na vida em que “jogar a toalha” é um ato de coragem e, corajosamente, dei com os ombros, saindo rumo a um futuro que eu ainda desconhecia. 

Os homens queriam se divertir, garantir as regras invisíveis do Clube do Bolinha, mas perder nunca seria divertido para mim…  Perder tudo bem, mas fazê-lo sem o pragmatismo e a atitude que diferencia os futuros vencedores, nunca!

É preciso honra e força interior para perder com classe…

Podiam chamar-me de tudo aquela altura, inclusive de mulher vadia e desleal, mas não podiam em momento algum chamar-me de covarde, acomodada e egoísta. Do primeiro ao último segundo todas as minhas ações honraram a FEB real que um dia honrou o Brasil e romper com o projeto àquela altura, mas que um ato de rebeldia, era uma luta contra o machismo e a imprudência.

Devia muito aquele clã e ao Jorge por ter me aberto portas quando ainda estava no Deserto, mas tudo paguei me expondo com a cidade inteira para que respeitassem a nossa família em sua fraqueza de iniciantes e quando com olhar técnico e corajoso, enfrentei clãs mais fortes para revidar os ataques sofridos. Fiz um trabalho de “bastidores”, apontando e tentando implementar as oportunidades percebidas, numa expectativa que um dia pudéssemos estar não apenas entre os mais fortes, mas também entre os mais respeitados da cidade.

A missão acabou quando percebi que meus colegas eram movidos por ego e superficialidade. Nenhum dos dois me seduz! 

Não dedicaria recursos sem o comprometimento de todos, sempre deixei isso claro a eles!

Só vale a pena jogar um game “pay to win” se for para transformar o mundo, dentro e fora da arena. 

A meta do Desenvolvedor era revelar “as lendas” da cidade. Eu ainda não era uma lenda, mas mesmo pequena, já estava escrevendo a minha história.

 

Continua…

** NOTA DA AUTORA: Meus sinceros respeitos pela coragem, nobreza e sacrifício das Forças Expedicionárias Brasileiras. Que a humanidade possa aprender com as lágrimas de tristeza e emoção dos nossos bravos heróis e que nunca mais nosso planeta precise presenciar e lutar uma Grande Guerra! A humanidade precisa evoluir, transformando o nosso mundo, nosso pequeno planeta azul, em um local de paz e harmonia!