Nem a pandemia parou os esportes intelectuais

Por Lexxa Blackfish

Nunca se praticou tanto o neurofitness como nesses tempos de crise e isolamento global. Brincadeira para alguns, esporte e trabalho para outros… 

A pandemia tornou mais urgente a necessidade de descompressão para aqueles que nunca imaginaram ver as várias indústrias, nacionais e internacionais, alcançando recordes negativos. Globalmente, já se fala em prejuízo de mais de U$1 bilhão para os parques da Disney, sem falar da situação de companhias aéreas e da rede hoteleira em todo o mundo.

 

No Brasil, a indústria automobilística por exemplo, conseguiu vender menos carros que quando foi lançada no século passado. A mídia mostra de um lado a pressão no governo, feita por um punhado de grandes empresários, agindo conforme seus faróis vermelhos de itens de controle, enquanto do outro, uma massa populacional à mercê do que “as pessoas de bem, terno e gravata” decidirão para situações básicas, como garantir comida aos filhos e manter a segurança econômica de seus futuros. 

 

É uma triste realidade que não pode ser negligenciada, necessitando ser citada em qualquer análise que seja feita sobre esse momento. 

 

Mas como nada é 100% bom ou ruim, enquanto há toda a tristeza de um lado, em razão da perda dos entes queridos para o Sars-CoV-2, pequenos sinais apontam algumas boas opções e esperança aqui e alí.

 

Na prática, a verdade é que enquanto empreendedores de todos os portes e ramos se apavoram em um extremo,  com a possibilidade e as consequências econômicas de um novo “impeachment tupiniquim“, as pessoas que ainda conseguem ter pelo menos um smartphone, já que PC e internet ainda não é um privilégio para todo os brasileiros, descarregam mais e mais a tensão do dia em joguinhos, que só parecem “coisa de criança”, e com aval da ciência. 

 

Os jogos são um sucesso na cultura humana desde sempre!

Quem não tem o acesso à tecnologia brinca com o que tem em mãos. E no “vale tudo” da brincadeira, pode-se até improvisar um jogo de damas com tampas de garrafas ou um xadrez feito com papelão, mesmo que só para passar o tempo e garantir alguma diversão. 

A brincadeira é algo típico da natureza humana. É o paradoxo da natureza do nosso cérebro, que torna possível à nossa espécie brincar de forma inocente, mesmo quando adultos, enquanto guardamos em nossos neurônios a capacidade de tomar decisões tão sérias quanto a de se criar ou detonar uma bomba atômica, dizimando milhares de pessoas instantâneamente.

Mercado de games cresce 30% no Brasil no mês de março, mesmo com a crise global e sanitária causada pelo Sars-CoV-2.

Parece distante, em pleno século XXI a idéia de ainda utilizarmos tal aparato, mas nem tanto assim, quando lemos o noticiário internacional e vemos a quadalidade das relações entre os principais países do mundo. Às vezes, o mundo de guerras e monstros nos jogos de computador são uma necessidade, um alento que permite driblar toda a tensão que vivemos diariamente com monstros reais. 

O que as pessoas raramente conseguem medir com todo esse cenário confuso é a quantidade de exercício mental que realizam todos os dias, brincando distraído com seus os joguinhos favoritos. Muito menos refletem sobre como utilizam esse hábito divertido para além de um hobby, como uma arma secreta para se destacar na vida acadêmica e na vida profissional.

O Neurofitness no mundo Pós-Sars-CoV-2 será por vezes arma secreta, enquanto em outras, profilaxia.

Se antes os esportes intelectuais atraiam o público em razão da experiência sensorial nos eventos, no mundo pós-pandemia, a procura se dará pela necessidade de exercitar a mente como medida terapêutica e preventiva contra eventuais danos causados ao cérebro, visto que pesquisas recentes apontam que o vírus ataca não apenas aos pulmões. Algo parecido com o que já acontecia anteriormente no uso de jogos para tratar outras enfermidades, inclusive ortopédicas e não apenas cognitivas.

 

O neurofitness será cada vez mais útil também nas escolas. 

Além da necessidade de adaptação ao regime de ensino à distância por parte dos alunos, ou seja, aprender a aprender sozinho, já que na modalidade à distância há uma maior necessidade de autogestão, há a oportunidade de reformular tudo o que hoje nos parece caro, complexo ou ineficiente. Especificamente, no que tange a educação, é o momento de se questionar porque as pessoas, à despeito da idade, possuem a dificuldade em aprender sozinhas e como isso pode ser desenvolvido, inclusive refletindo na qualidade dos profissionais que serão encaminhados às empresas em longo prazo. 

Se vivemos em um cenário em que todos ou pelo menos a maioria consegue aprender sozinho e agir de forma responsável, mesmo sem a cobrança presencial de um superior, torna-se mais simples o acesso ao conhecimento e a elaboração de soluções com base neste conhecimento adquirido para a vida prática. E a pandemia tem nos mostrado a necessidade de pensar de forma universal desde o momento em que constatamos que somente uma ou outra Nação produzia quase que 100% do maquinário para os hospitais, enquanto outra era a responsável pelos insumos da indústria farmacêutica global e todo o resto do globo viu-se dependendo das decisões mais ou menos éticas e políticas destes. 

 

O vírus mostrou as arestas sociais globais a quem quer e a quem não quer aceitar que as coisas precisam ser diferentes, inclusive para que o cenário mude favoravelmente à humanidade

 

Enquanto hoje os empresários se descabelam para adequar suas TI’s, operacionalizando a ação em workshifting, algo que muitos resistiam no passado  e agora estão emergencialmente cedendo, há também limitações técnicas e acadêmicas, com parte significativa de profissionais não se considerando aptos para atuar de forma remota. 

 

Não é algo só para o Brasil. Em todo o planeta diversas empresas se atolaram em dívidas e milhões de pessoas entraram para a lista dos desempregados, enquanto outras entraram para as estatísticas da ONU, como o que os cientistas chamam de “pessoas em vulnerabilidade“. Leiam vulnerabilidade aqui como a falta do básico: comida, abrigo, remédios, emprego… Algo novo para alguns, mas realidade dura para ao menos 1 terço da população global e não somente pela crise sanitária.

 

Privilégio brasileiro em relação às outras nações é a crise política que mais uma vez toma forma. Em nenhum outro país a palavra impeachment está saindo nos jornais. Até o conflito histórico entre Palestina e Israel teve “sua banderinha branca” em favor da população e dos doentes. Mas não cabe a mim julgar esse tipo de vulnerabilidade. A questão aqui é outra…

Enquanto choramos os nossos mortos enterrados em valas comuns e assistimos pacientemente as manobras estarrecedoras dos nossos políticos, o mundo muda e o neurofitness se consolida como algo cada vez mais real, especialmente, dentro desse novo cenário que se desenha a cada dia.

 

Salas de poker batem recordes de tráfego e entrega de premiações. Comunidades como o “Steam” e o “Twitch” seguem crescendo no mercado, promovendo novos jogos, favorecendo a realização de competições e contribuindo para que a “brincadeira de criança” seja cada vez mais um negócio que movimenta fortunas. 

O neurofitness já era uma realidade e, com todas essas mudanças, mostra que veio para ficar. Seja pelo potencial de manter-se gerando empregos e movimentando valores mesmo em um cenário com as principais indústrias do mundo “stopadas”, seja pela saúde e desenvolvimento pessoal que agrega, contribuindo para que pessoas de todas as idades encontrem no lúdico um caminho para a excelência, realização e transformação de dentro para fora.